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sábado, 24 de setembro de 2011

O Raul
(Texto de Max Gehringer - CBN)

Durante minha vida profissional, eu topei com algumas figuras cujo sucesso surpreende muita gente.  Figuras sem um vistoso currículo acadêmico, sem um grande diferencial técnico, sem muito networking ou marketing pessoal. Figuras como o Raul.
Eu conheço o Raul desde os tempos da faculdade. Na época, nós tínhamos um colega de classe, o Pena, que era um gênio.

Na hora de fazer um trabalho em grupo, todos nós queríamos cair no grupo do Pena, porque o Pena fazia tudo sozinho. Ele escolhia o tema, pesquisava os livros, redigia muito bem e ainda desenhava a capa do trabalho - com tinta nanquim.
Já o Raul nem dava palpite. Ficava ali num canto, dizendo que seu papel no grupo era um só, apoiar o Pena. Qualquer coisa que o Pena precisasse, o Raul já estava providenciando, antes que o Pena concluísse a frase.
Deu no que deu.
O Pena se formou em primeiro lugar na nossa turma. E o resto de nós passou meio na carona do Pena - que, além de nos dar uma colher de chá nos trabalhos, ainda permitia que a gente colasse dele nas provas. No dia da formatura, o diretor da escola chamou o Pena de 'paradigma do estudante que enobrece esta instituição de ensino'. E o Raul ali, na terceira fila, só aplaudindo.
Dez anos depois, o Pena era a estrela da área de planejamento de uma multinacional. Brilhante como sempre, ele fazia admiráveis projeções estratégicas de cinco e dez anos. E quem era o chefe do Pena? O Raul.
E como é que o Raul tinha conseguido chegar àquela posição? Ninguém na empresa sabia explicar direito. O Raul vivia repetindo que tinha subordinados melhores do que ele, e ninguém ali parecia discordar de tal afirmação. Além disso, o Raul continuava a fazer o que fazia na escola, ele apoiava.
Alguém tinha um problema? Era só falar com o Raul que o Raul dava um jeito.
Meu último contato com o Raul foi há um ano. Ele havia sido transferido para Miami, onde fica a sede da empresa. Quando conversou comigo, o Raul disse que havia ficado surpreso com o convite. Porque, ali na matriz, o mais burrinho já tinha sido astronauta.
E eu perguntei ao Raul qual era a função dele. Pergunta inócua, porque eu já sabia a resposta.
O Raul apoiava. Direcionava daqui, facilitava dali, essas coisas que, na teoria, ninguém precisaria mandar um brasileiro até Miami para fazer. Foi quando, num evento em São Paulo, eu conheci o Vice-presidente de recursos humanos da empresa do Raul. E ele me contou que o Raul tinha uma habilidade de valor inestimável:...
ELE ENTENDIA DE GENTE!

Entendia tanto que não se preocupava em ficar à sombra dos próprios subordinados para fazer com que eles se sentissem melhor, e fossem mais produtivos. E, para me explicar o Raul, o vice-presidente citou Samuel Butler, que eu não sei ao certo quem foi, mas que tem uma frase ótima: “Qualquer tolo pode pintar um quadro, mas só um gênio consegue vendê-lo". Essa era a habilidade aparentemente simples que o Raul tinha, de facilitar as relações entre as pessoas.
Perto do Raul, todo comprador normal se sentia um expert e todo pintor comum, um gênio. Essa era a principal competência dele.


'Há grandes Homens que fazem com que todos se sintam pequenos. Mas, o verdadeiro Grande Homem é aquele que faz com que todos se sintam Grandes".

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Geração Delivery
Elimar Silva Melo[1]

Na qualidade de professor, escuto muito se dizer que esta geração é “mais inteligente” que as gerações anteriores e que são mais capazes e rápidos de tudo que já se tenha visto na humanidade. Verdade! Porém, isso não é um privilégio da referida Geração.

Tenho estudado a Geração Y há cerca de cinco anos, por vários motivos que vão desde a curiosidade para saber como é o comportamento comum dessa turma, como melhor contratá-los, como melhor estimulá-los e assim por diante.

Cabe dizer que eles não têm “mais inteligência” que outras gerações; é que desenvolveram e desenvolvem outros tipos de habilidade e comportamentos que facilitam a vida na lida com as novas tecnologias e dos novos desafios. Desafios esses que não são privilégio das pessoas da referida Geração, é que eles desenvolvem mais rapidamente as respostas mais adequadas para as novas perguntas que são feitas, percebem?

Não é uma questão, apenas, de maior ou melhor inteligência, é questão de necessidade de novas respostas para perguntas novas ou novas respostas para novas formas de se fazerem as “velhas” perguntas.

Observem... Por exemplo: quando quero um livro (sou da Geração X, quase um baby booner) vou à livraria e vasculho os títulos que interessam; “degusto” algumas obras que não conheço, pergunto para o livreiro, normalmente o Álvaro Gentil, alguma referência ou coisa semelhante. Quando muito... se tenho certeza da compra...peço a obra através da Americanas.com

Essa turma entra no computador e “baixa” uma dezena de títulos correlatos em trinta minutos; lê um compêndio do que lhes interessa e está, rapidamente, preparada para muitas respostas. Eles; nossos filhos, nossos alunos e nossos subordinados, estão melhores preparados para esses desafios.

Bem, agora vão duas das muitas preocupações que tenho a respeito do comportamento da Geração Y para as famílias, empresas e escolas.

A primeira diz respeito à profundidade “de um pires” que a maioria deles demonstra em quase tudo que fazem. São rasos em suas argumentações e exposições de motivos; sem “sustança” (como dizia minha avó) em quase tudo que fazem.

As relações são periféricas e “virtuais”, onde o contato é melhor à distância que no olho a olho. Essa é uma preocupação que deve afligir ás famílias, pois tornam a maioria deles egoístas e individualistas em médio prazo.

Essa mesma falta de profundidade ressoa nas organizações empresariais e nas escolas. Quando leio trabalhos de alguns, perfeitamente copiados da internet e interpretações de textos (e contextos) vazias de visão crítica da realidade; fico ainda mais temeroso. Pois, a falta de profundidade leva à muitas decisões rápidas e inconseqüentes nas organizações. A ausência de pesquisa séria (não falo de “busca” na rede) e compromisso crítico com o que se fala e o que se propõe, põem em risco resultados importantes para as mesmas.

O segundo aspecto diz respeito ao comodismo. Diferente de comodidade, o comodismo é um mal a ser evitado. Chamo de Geração Delivery em função disso, pois temos muitos benefícios com as comodidades do mundo atual proporcionadas pelas “entregas em domicílio” de quase tudo que está disponível para a venda.

Acontece é que esse conceito foi capaz de infectar a convivência das pessoas a tais níveis que boa parte dessa geração é séria candidata aos malefícios da Preguiça; um pecado Capital, tamanha é sua seriedade. Digo isso não de forma religiosa, mas de forma reflexiva sobre os hábitos da humanidade.

Poucos são os jovens que têm iniciativa de criar “fora dói quadrado” e, pior, menos são os que além da iniciativa não têm “acabativa” (plagiando outro articulista). Ou seja, não vão à frente com o que iniciam.

A desculpa de que isso favorece a disposição do tempo para fazerem outras coisas já não cola mais, pois mesmo com as facilidades deliveries eles permanecem fazendo as mesmas coisas.

O fato das facilidades modernas de se ter quase tudo ao alcance do mouse faz com que a criatividade e a capacidade de realização fiquem limitadas. E essa é uma preocupação dos profissionais de Gestão nas organizações, dos professores nas escolas de ensino fundamental, médio e graduações.

Também nas pós graduações essas duas preocupações que dividi acima nos assombram, pois parte dos discentes não busca a especialização para aprofundamento e querem, cada vez mais, facilidades no processo e menores exigências do corpo docente e das Instituições.

É difícil classificar uma geração inteira através de padrões de comportamento, contudo a recorrência deles tem sido alvo de observação de muitos estudiosos. Recentemente, realizei uma pesquisa em escolas de graduação e empresas para apurar o comportamento da Geração Y. E é nela, além da minha experiência pessoal em gestão e na Educação, que baseio minhas observações.

O resultado completo da pesquisa sairá em breve e será tema de outra conversa.





[1] Coordenador Administrativo das Faculdades Arnaldo e professor da FDC